O pH do solo mede o quanto ele é ácido ou alcalino, numa escala de 0 a 14 em que 7 é neutro, valores abaixo de 7 são ácidos e valores acima são alcalinos. Ele importa porque controla quanto dos nutrientes presentes no solo a raiz consegue de fato absorver: com o pH fora da faixa, a planta pode passar fome mesmo num canteiro adubado. A maior parte das hortaliças se dá bem em solo levemente ácido, por volta de 5,5 a 6,8. Para saber onde o seu solo está, a forma confiável é a análise de laboratório, e a correção, quando necessária, é feita com quantidade calculada a partir desse laudo.

O que o número do pH representa

O pH indica a concentração de íons de hidrogênio na água que envolve as partículas do solo. A escala é logarítmica: cada ponto equivale a uma diferença de dez vezes na acidez. Um solo com pH 5 é dez vezes mais ácido que um com pH 6, e cem vezes mais ácido que um com pH 7. Por isso, uma mudança que parece pequena no número, de 5,0 para 6,0, representa uma transformação grande no ambiente da raiz e exige uma quantidade considerável de corretivo.

Boa parte dos solos brasileiros é naturalmente ácida, resultado de chuva intensa por muito tempo, que lava cálcio, magnésio e potássio para as camadas mais fundas. Solos alcalinos existem, mas são menos comuns, aparecendo em algumas regiões semiáridas e em áreas com muito entulho de construção ou calcário aplicado em excesso.

Por que o pH trava ou libera nutrientes

O nutriente pode estar no solo e, ainda assim, não estar disponível. O pH muda a forma química dos elementos e a facilidade com que se dissolvem na água do solo:

  • Em solo muito ácido: o alumínio passa a uma forma tóxica que danifica a ponta das raízes; o fósforo fica preso às partículas; cálcio e magnésio costumam estar baixos. A planta cresce pouco e tem raiz curta e grossa.
  • Em solo alcalino: ferro, manganês e zinco ficam menos disponíveis. O sintoma típico é o amarelo entre as nervuras das folhas novas, enquanto as nervuras seguem verdes.
  • Na faixa levemente ácida: a maioria dos nutrientes está razoavelmente disponível ao mesmo tempo, e a vida do solo, como bactérias e minhocas, também trabalha melhor.

É por isso que adubar um solo muito ácido sem corrigir o pH costuma dar resultado fraco: parte do adubo fica retida e não chega à planta.

Quais plantas fogem da faixa comum

A faixa de 5,5 a 6,8 vale como referência para a maioria das hortaliças, mas há exceções úteis de conhecer:

  • Mirtilo: exige solo bem ácido e sofre em solo corrigido para hortaliças comuns. Por isso costuma ser cultivado em vaso ou canteiro separado, com substrato próprio.
  • Batata: tolera solo mais ácido, e a sarna-comum, doença que deixa a casca áspera, tende a aparecer mais quando o pH sobe.
  • Beterraba, espinafre e aspargo: preferem a parte mais alta da faixa, próxima do neutro.

Na prática, quem cultiva várias espécies num mesmo canteiro mira o meio da faixa e separa em vaso as plantas com exigência muito diferente.

Como medir: laboratório, kit e medidor

Há três caminhos, com confiabilidades bem diferentes:

  • Análise de laboratório: é a única que, além do pH, mostra os valores de que você precisa para calcular uma correção. Exige coletar várias pequenas amostras da área, misturar e enviar uma parte. O passo a passo da coleta e da leitura está neste texto sobre como usar a análise de solo para melhorar a fertilidade.
  • Kit colorimétrico: mistura-se um pouco de solo com água e um reagente, e a cor indica uma faixa de pH. Serve para uma noção aproximada e para acompanhar mudanças ao longo do tempo.
  • Medidor de espetar: os modelos baratos, sem calibração, costumam dar leituras pouco confiáveis. Medidores de eletrodo calibrados funcionam, mas custam mais e exigem manutenção.

No laudo, repare em como o pH foi medido. Os laboratórios brasileiros usam pH em água ou pH em cloreto de cálcio, e o segundo costuma dar um valor um pouco mais baixo para o mesmo solo. As faixas de referência mudam conforme o método, então compare sempre com a tabela que acompanha o próprio laudo.

Termos vizinhos que aparecem no laudo

O pH sozinho não diz quanto corretivo usar. Quem calcula isso olha também para:

  • Alumínio trocável: a quantidade de alumínio em forma tóxica. Quanto maior, mais urgente a correção.
  • Acidez potencial (H + Al): a acidez guardada nas partículas, que vai sendo liberada à medida que se corrige o pH. Explica por que dois solos com o mesmo pH podem pedir quantidades bem diferentes de calcário.
  • CTC: a capacidade de troca de cátions, ou seja, quanto de nutriente o solo consegue segurar. Solos argilosos e ricos em matéria orgânica têm CTC maior que solos arenosos.
  • Saturação por bases (V%): a fração dessa capacidade ocupada por cálcio, magnésio e potássio. É um dos números usados para calcular a quantidade de calcário.

A matéria orgânica também conta: ela funciona como um amortecedor, que reduz as variações bruscas de pH. Um canteiro bem manejado com composto tende a manter o pH mais estável.

Como a correção funciona

Para subir o pH de um solo ácido, o material mais usado é o calcário agrícola. O dolomítico fornece cálcio e magnésio; o calcítico fornece principalmente cálcio, e a escolha entre eles depende do magnésio que o laudo mostra. O calcário reage devagar: precisa ser bem misturado à terra e aplicado com antecedência ao plantio, com o solo úmido, para ter tempo de agir.

A quantidade depende do laudo, da área, da profundidade a corrigir e do produto, por isso deve vir de um agrônomo ou da Emater, nunca de uma tabela genérica. Para baixar o pH de um solo alcalino, a correção é mais lenta e mais delicada, e também deve ser orientada por um técnico.

Em vaso, o caso é mais simples: os substratos comerciais costumam vir com o pH já ajustado, informado na embalagem. Ao renovar o substrato a cada ciclo, você raramente precisa corrigir algo. O que muda o pH do vaso com o tempo é a própria rega e a adubação repetida; se uma planta antiga começa a mostrar amarelo entre as nervuras das folhas novas, trocar parte do substrato costuma resolver mais rápido do que tentar corrigi-lo.

Erros comuns com o pH

  • Aplicar calcário "por garantia", sem análise: calcário em excesso leva o pH para cima da faixa e provoca falta de ferro, manganês e zinco, um problema mais difícil de desfazer do que a acidez.
  • Usar cinza à vontade: a cinza de madeira também sobe o pH e, em excesso, causa o mesmo desequilíbrio. Além disso, é cáustica: manuseie com luvas e mantenha longe de crianças e pets.
  • Aplicar calcário junto com esterco fresco ou adubo à base de amônia: a combinação favorece a perda de nitrogênio para o ar. Separe as aplicações no tempo.
  • Confiar numa única leitura de medidor barato para decidir uma correção.
  • Tentar acidificar o solo com vinagre ou outros produtos de cozinha na rega: o efeito é passageiro e pode prejudicar a vida do solo.

Ao manusear calcário, use luvas e máscara, porque o pó irrita olhos e vias respiratórias, e mantenha crianças e animais afastados até ele ser incorporado ao solo.