Para fazer a análise de solo da horta ou do sítio, você precisa de uma pá reta ou de um trado, um balde plástico limpo, um saco plástico novo e um laboratório de análise de solo, que pode ser indicado pela Emater, por uma universidade ou por uma cooperativa da região. O processo tem duas partes: coletar uma amostra que represente bem a área, misturando várias pequenas porções de terra, e depois ler o laudo com ajuda técnica. O laudo mostra a acidez, a matéria orgânica, os principais nutrientes e a textura, e é a partir dele que um agrônomo recomenda calagem e adubação na medida certa.
Passo 1: saiba quando fazer a análise
Os momentos mais úteis para analisar o solo são antes de implantar uma horta, um pomar ou uma lavoura nova, quando as plantas crescem mal sem causa aparente, e de tempos em tempos numa área já cultivada, para acompanhar a fertilidade. Como a correção da acidez leva um tempo para agir, o ideal é coletar com alguns meses de antecedência do plantio.
Para horta em vaso, a análise de solo raramente compensa: o substrato é comprado ou misturado, e trocar parte dele resolve a maioria dos problemas.
Passo 2: divida a área em partes parecidas
Uma amostra só vale para uma área uniforme. Se o terreno tem partes diferentes, cada uma precisa de amostra própria. Separe pela cor da terra, pela posição no terreno (baixada, meia encosta, topo), pelo histórico de uso (horta antiga, área de pasto, terra nova) e pelo tipo de cultivo.
Num quintal hipotético com uma horta antiga de três canteiros e uma área nova no fundo, onde antes havia grama, são duas amostras: uma para os canteiros e outra para a área nova. Misturar as duas daria um resultado que não descreve nenhuma delas.
Passo 3: prepare as ferramentas certas
Use balde de plástico limpo, sem restos de adubo, cal ou cimento. Baldes de metal galvanizado e ferramentas enferrujadas podem contaminar a amostra, principalmente se a análise incluir micronutrientes. A pá reta permite cortar uma fatia uniforme de terra; o trado, uma espécie de cano com ponta, retira uma coluna de solo da profundidade certa e é o mais prático para várias coletas.
Passo 4: colete várias subamostras na profundidade certa
Percorra a área em zigue-zague e retire terra em vários pontos espalhados, algo entre 10 e 20 pontos para uma área pequena e homogênea. Cada porção é uma subamostra. Em cada ponto:
- afaste a palha, as folhas e o mato da superfície, sem raspar a terra;
- com a pá, abra um buraco em forma de V até a profundidade indicada pelo laboratório, que para hortas e culturas anuais costuma ser de 0 a 20 cm;
- corte uma fatia fina de uma das paredes, de cima até embaixo, com espessura uniforme;
- coloque no balde só a faixa central da fatia, descartando as bordas.
Para pomares e culturas perenes, o laboratório ou o técnico pode pedir também amostras de camadas mais profundas e coletas na projeção da copa.
Passo 5: evite os pontos que distorcem o resultado
Não colete em formigueiros, cupinzeiros, locais de queima, montes de esterco ou composto, beiras de caminho, perto de cercas e construções, nem onde houve adubação ou calagem recente. Esses pontos têm terra muito diferente do resto e alteram a média.
Passo 6: misture, separe e identifique a amostra
Desmanche os torrões e misture bem todas as subamostras no balde. Retire cerca de meio quilo dessa mistura, ou a quantidade que o laboratório pedir, e coloque num saco plástico novo. Se a terra estiver muito molhada, espalhe sobre um plástico limpo, à sombra, para secar ao ar antes de embalar, sem usar sol forte, forno ou fogo.
Identifique o saco com seu nome, o nome da área, a profundidade e a cultura que pretende plantar. Essa última informação é usada na recomendação.
Passo 7: escolha o tipo de análise e envie
Os laboratórios costumam oferecer a análise química básica, com pH, matéria orgânica, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, alumínio e acidez potencial, e opções com micronutrientes e textura. Para a primeira análise de uma área, peça a básica com textura. Pergunte ao laboratório se ele participa de algum programa de controle de qualidade, e envie a amostra o quanto antes.
O prazo do resultado e o preço variam entre laboratórios e tipos de análise. Antes de enviar, pergunte também se o laboratório já entrega a interpretação dos resultados ou só os números, e se aceita amostras pelo correio. Guarde uma cópia da identificação e anote a data da coleta: ao repetir a análise anos depois, você vai querer comparar a mesma área, coletada do mesmo jeito.
Passo 8: entenda os principais itens do laudo
- pH: indica a acidez do solo. O laudo informa o método de medição, em água ou em solução de cloreto de cálcio, e os valores dos dois métodos não são comparáveis entre si. Cada método tem sua faixa de interpretação.
- Matéria orgânica: mostra quanto de material orgânico decomposto há na terra. Valores baixos indicam necessidade de composto, cobertura e adubação verde.
- Fósforo e potássio: dois dos nutrientes principais. São interpretados em faixas, como baixo, médio e alto, que variam conforme a textura do solo e a região.
- Cálcio e magnésio: nutrientes ligados também à correção da acidez.
- Alumínio: em solos ácidos, o alumínio prejudica o crescimento das raízes. Quanto maior, mais urgente a correção da acidez.
- CTC: capacidade de troca de cátions, que indica quanto o solo consegue reter nutrientes. Solos arenosos e pobres em matéria orgânica costumam ter CTC baixa.
- Saturação por bases (V%): mostra que parte da CTC está ocupada por nutrientes como cálcio, magnésio e potássio. É um dos dados usados para calcular a quantidade de calcário.
- Textura: proporção de areia, silte e argila. Ela muda a interpretação de vários itens e a forma de manejar a água.
Um exemplo hipotético mostra como os itens se ligam. Suponha o laudo da área nova do quintal citado antes: pH baixo, alumínio presente, saturação por bases baixa, matéria orgânica baixa e fósforo classificado como baixo. A leitura conjunta indica um solo ácido e pobre, em que a correção da acidez vem primeiro, porque com alumínio alto as raízes não exploram a terra e o adubo é mal aproveitado. Já a horta antiga, que recebeu composto por anos, pode mostrar matéria orgânica boa e fósforo alto. Nela, acrescentar mais adubo rico em fósforo seria desperdício.
Erros comuns ao fazer a análise
Coletar em um só ponto. Uma pá de terra de um canto não representa a área. São as várias subamostras misturadas que dão um resultado confiável.
Juntar áreas diferentes. A média de duas terras distintas leva a uma recomendação errada para as duas.
Comparar laudos de métodos diferentes. Ao repetir a análise, use o mesmo laboratório ou confira se os métodos são os mesmos, principalmente o do pH.
Passo 9: peça a recomendação a um técnico
A interpretação de cada item usa tabelas regionais, que variam de estado para estado e conforme a cultura. Por isso, leve o laudo a um agrônomo ou à Emater para receber a recomendação de calcário e de adubação para o que você vai plantar. Evite aplicar calcário ou adubo químico por conta própria, a partir de doses genéricas: o excesso desequilibra o solo e pode prejudicar as plantas por anos.
Enquanto aguarda a recomendação, as práticas orgânicas continuam valendo: cobertura do solo, composto e adubação verde melhoram a matéria orgânica e a estrutura. Veja como fazer compostagem em casa e como recuperar terra fraca ou compactada com adubação verde. Para comparar os sistemas de cultivo e o lugar da análise em cada um, veja cultivo convencional, orgânico e biodinâmico na prática.