A maior parte dos problemas de rega na horta vem de regras repetidas sem contexto: regar todo dia, nunca regar ao sol, encher o fundo do vaso de pedras. O que realmente decide a rega é a umidade do substrato na altura das raízes, o tamanho do vaso, a planta e o clima da semana. Abaixo estão as crenças mais comuns, o que cada uma tem de verdade e o que fazer no lugar delas.
Regar com sol forte queima as folhas
É mito na maior parte dos casos. A ideia é que as gotas sobre a folha funcionariam como lupas e queimariam o tecido. Na prática, gotas sobre folhas comuns de hortaliças raramente concentram luz a ponto de causar queimadura, e evaporam rápido no calor.
O que existe de verdade é outra coisa. Regar no pico do sol desperdiça água, porque boa parte evapora antes de chegar às raízes, e a água fria sobre um substrato muito quente pode estressar algumas plantas. Por isso, o melhor horário continua sendo o começo da manhã, com a planta abastecida antes do calor. O segundo melhor é o fim da tarde, cedo o bastante para as folhas secarem antes da noite, já que folhagem molhada por muitas horas favorece doenças.
Se você encontrar a planta murcha ao meio-dia com o substrato seco, não espere: regue o substrato, sem molhar as folhas. Deixar a planta sem água até a tarde faz mais mal do que regar fora do horário ideal.
O certo é regar todos os dias
Não existe frequência fixa. A mesma planta pode precisar de água duas vezes por dia num vaso pequeno, ao sol, num dia quente de verão, e uma vez a cada quatro ou cinco dias num canteiro coberto com palha, num período nublado e fresco.
O critério que funciona é medir a umidade, e não contar os dias. Enfie o dedo uns 3 cm no substrato: se estiver seco nessa profundidade, é hora de regar; se ainda estiver úmido, espere. Para vasos, outro sinal é o peso: levante o vaso logo depois de uma rega e depois de alguns dias, e você aprende a reconhecer o vaso leve, que pede água. Em canteiros, cavar um pequeno buraco ao lado da planta mostra se a umidade chega à profundidade das raízes ou se só a superfície está molhada.
Suponha, como exemplo hipotético, uma varanda com um vaso de 5 litros de manjericão e um vaso de 40 litros de tomate, lado a lado e no mesmo sol. Num dia quente, o vaso pequeno pode secar até o fim da tarde, enquanto o grande ainda guarda umidade para o dia seguinte. Uma regra única de rega diária deixaria o manjericão com sede ou o tomate encharcado. Medir vaso por vaso resolve as duas situações, e leva menos de um minuto. Com o tempo, os vasos que secam mais rápido ficam conhecidos, e a checagem vira hábito.
Pratinho com água embaixo do vaso mantém a planta hidratada
É mito, e com dois problemas. O primeiro é a raiz: a água parada no pratinho volta para o fundo do vaso e mantém a parte de baixo do substrato encharcada, sem ar. Com o tempo, as raízes dessa região apodrecem, e a planta murcha mesmo com água sobrando.
O segundo é a saúde de quem mora na casa. Água parada em pratinhos é um dos criadouros mais comuns do mosquito da dengue, que também transmite chikungunya e zika. Se você usa pratinho para proteger o piso, esvazie a água que escorre depois de cada rega, ou encha o pratinho com areia, que absorve o excesso sem formar lâmina de água. Lave os pratinhos com escova de tempos em tempos, porque os ovos do mosquito ficam grudados na parede.
Pedras ou cacos no fundo do vaso melhoram a drenagem
É um dos mitos mais difundidos, e o efeito costuma ser o contrário do esperado. A água não passa com facilidade de um material fino, como o substrato, para um material grosso, como as pedras. Ela se acumula no substrato logo acima da camada de pedras até saturar, e só então escorre. Na prática, a zona encharcada sobe para mais perto das raízes, e o volume útil do vaso diminui.
O que garante a drenagem são três coisas: furos suficientes no fundo, um substrato que não compacta e o vaso sem água parada embaixo. Se o furo for grande e o substrato escapar por ele, basta cobrir o furo com um pedaço de tela ou de manta permeável. Pedras no fundo só fazem sentido para dar peso a um vaso alto que tomba com o vento.
Planta murcha está sempre com falta de água
Não necessariamente. Murcha é sinal de que a água não está chegando às folhas, e isso tem três causas comuns:
- Falta de água: o substrato está seco. A planta se recupera em poucas horas depois da rega.
- Excesso de água: o substrato está encharcado há dias, as raízes apodreceram e não absorvem mais. Regar de novo piora. O sinal é a terra úmida, às vezes com cheiro ruim, e folhas amareladas além de murchas.
- Calor do meio do dia: algumas plantas, como abóbora e pepino, murcham nas horas mais quentes mesmo com o solo úmido, porque perdem água pelas folhas mais rápido do que a raiz repõe. Se elas se recuperam sozinhas no fim da tarde, não há o que corrigir.
Por isso, antes de regar uma planta murcha, confira o substrato com o dedo.
Quanto mais água, mais a planta cresce e produz
Também é mito. Acima do que a planta consegue usar, a água extra passa direto pelo vaso ou pelo canteiro e leva junto parte dos nutrientes, que vão embora pelo fundo. O solo encharcado ainda favorece doenças de raiz e de colo.
Em hortaliças de fruto, o excesso e a irregularidade causam problemas visíveis: tomates rachados depois de uma rega pesada após dias de seca e frutos mais aguados, com menos sabor. Uma rega moderada e regular rende mais do que regas fortes e espaçadas. Em canteiros maiores, a irrigação por gotejo em pequenas propriedades ajuda justamente a entregar pouca água com regularidade, direto na raiz.
Água da torneira faz mal às plantas por causa do cloro
Para a maioria das hortaliças, temperos e frutíferas cultivadas em casa, a água tratada da torneira não causa problema, e é a que a maior parte das hortas urbanas usa. Deixar a água descansar num balde antes de regar não faz mal e deixa a água em temperatura ambiente, mas não é obrigatório para essas plantas.
A ressalva vale para alguns grupos de plantas sensíveis a sais e minerais da água, como as plantas carnívoras, que costumam ser cultivadas com água da chuva ou destilada. Para a horta comum, a água da chuva é uma ótima opção quando captada e armazenada do jeito certo, em recipiente tampado e telado para não virar criadouro de mosquito. Este guia sobre captadores de água da chuva para irrigação em pequenos cultivos domésticos mostra como montar esse sistema. O que não se deve usar é água de reúso improvisada, como a da máquina de lavar ou da louça, que pode levar resíduos de produtos de limpeza para o solo e para as hortaliças que você vai comer.