Quando o tomate ainda verde ganha uma mancha escura, seca e afundada bem na ponta oposta ao cabinho, o problema quase sempre é a podridão apical. Não é praga nem doença contagiosa: é um distúrbio causado pela falta de cálcio no tecido do fruto, e essa falta, na maioria das hortas, vem da rega irregular, e não de um solo pobre em cálcio. O fruto atingido não se recupera, mas os próximos cachos podem sair sadios se a umidade do solo ficar mais constante.

Como reconhecer a podridão apical

O sintoma começa como uma área pequena, encharcada e de cor mais clara na ponta do fruto, geralmente quando ele ainda está verde e crescendo. Em poucos dias essa área escurece, fica marrom ou preta, seca e afunda, com textura de couro. A mancha pode cobrir só um ponto ou quase metade do tomate.

Alguns detalhes ajudam a confirmar:

  • a mancha fica sempre na ponta do fruto, do lado oposto ao cabinho;
  • costuma aparecer primeiro nos primeiros cachos, que crescem rápido numa fase em que a planta ainda está formando raiz;
  • vários frutos do mesmo cacho podem ser atingidos ao mesmo tempo;
  • com o tempo, fungos oportunistas podem cobrir a mancha com um mofo escuro, mas eles chegam depois, não são a causa.

Os tomates de formato alongado, como os do tipo italiano, costumam ser mais sensíveis. O mesmo distúrbio aparece no pimentão, na berinjela, na melancia e na abobrinha, e a lógica de prevenção é a mesma.

O que não é podridão apical

Antes de mudar a rega, vale descartar três problemas parecidos:

  • Queimadura de sol: a mancha fica no lado do fruto virado para o sol, não necessariamente na ponta, e é clara, esbranquiçada ou amarelada, com aspecto de papel. Aparece depois de uma poda forte ou quando a planta perde folhas e deixa os frutos expostos.
  • Podridões por fungo ou bactéria: começam em qualquer ponto do fruto, muitas vezes onde houve um ferimento ou onde o tomate encosta no solo, e costumam ser úmidas e se espalhar rápido.
  • Broca: há um furo, às vezes com resíduos parecidos com serragem, e o estrago está dentro do fruto. Para separar esse caso dos demais, este texto sobre o que observar antes de agir contra pragas e doenças ajuda a organizar a observação.

Se a mancha está na ponta, é seca e afundada e não há furo, siga para as causas abaixo.

Causa mais provável: rega irregular

O cálcio chega ao fruto dissolvido na água que a raiz absorve. Ele se move junto com o fluxo de água dentro da planta e não é redistribuído depois: o que não chegou ao fruto naquela fase de crescimento não chega mais. Quando o solo alterna entre encharcado e seco, a absorção oscila, e a ponta do fruto, que é a parte mais distante e a que recebe menos fluxo, fica sem cálcio justamente quando mais precisa.

Por isso o problema é tão comum em tomateiro de vaso. Suponha um vaso de 15 litros numa varanda ensolarada, regado só nos fins de semana. No sábado o substrato fica encharcado; na quarta-feira, já está seco nos primeiros centímetros e a planta murcha nas horas mais quentes. Os frutos que estavam crescendo nesses dias de oscilação são os que vão aparecer com o fundo preto uma ou duas semanas depois.

Calor forte e vento pioram o quadro: as folhas transpiram muito e puxam a maior parte da água para elas, enquanto o fruto, que transpira pouco, recebe menos.

Outras causas que contribuem

Em ordem de probabilidade, depois da rega:

  1. Raiz pequena ou danificada. Vaso pequeno para o porte da planta, raiz enovelada, solo compactado ou raiz cortada ao capinar perto do pé reduzem a absorção de água e, com ela, a de cálcio.
  2. Excesso de adubo nitrogenado. O nitrogênio em excesso estimula muita folha, que disputa água e cálcio com os frutos. Adubos com muito sal também atrapalham a absorção.
  3. Solo realmente pobre em cálcio ou muito ácido. É a causa menos frequente em horta caseira, mas acontece em solos que nunca foram corrigidos. A única forma de saber é a análise de solo; veja como funciona em como usar a análise de solo na horta.

Como descobrir qual causa pesa mais na sua horta

Na prática, as causas costumam se somar, e algumas perguntas rápidas mostram por onde começar:

  • A planta murcha nas horas quentes e se recupera à noite? É sinal de que o solo está secando demais entre as regas. Comece pela rega.
  • O vaso tem menos de uns 20 litros ou a raiz já sai pelos furos do fundo? O volume de terra é pequeno para o porte da planta, e a umidade oscila mesmo com rega diária.
  • A planta está muito vigorosa, com folhas grandes e escuras, mas poucos frutos? Revise a adubação nitrogenada.
  • O canteiro nunca recebeu análise nem correção, e a rega é regular? Aí o solo sobe na lista de suspeitos.

Uma forma simples de acompanhar é marcar na parede ou num pedaço de bambu fincado no vaso a data em que você mudou a rega. Os frutos que começarem a se formar depois dessa data mostram se a correção funcionou, o que costuma levar algumas semanas.

O que fazer com os frutos e com a planta agora

O fruto com fundo preto não volta ao normal. As opções dependem do tamanho da mancha:

  • Mancha pequena e seca, sem mofo: o restante do tomate pode ser aproveitado, cortando a parte escura com folga.
  • Mancha grande, mole ou com mofo: descarte o fruto.

Retirar logo os frutos atingidos tem uma vantagem prática: a planta deixa de gastar energia com eles e os frutos novos ganham espaço. Em seguida, corrija a rega imediatamente, porque o efeito aparece nos frutos que ainda vão se formar.

Sobre produtos com cálcio vendidos para pulverizar nas folhas e nos frutos: como o cálcio quase não se move dentro da planta, o resultado costuma ser limitado, e o uso só faz sentido com orientação de um agrônomo ou da Emater, seguindo o rótulo. Casca de ovo enterrada no vaso também não resolve a tempo, porque leva muito tempo para se decompor e liberar cálcio.

Como evitar nos próximos cachos e no próximo plantio

A prevenção gira em torno de deixar a umidade do solo o mais estável possível:

  1. Regue antes de o solo secar por completo. Enfie o dedo no substrato: se os primeiros 3 a 4 cm estiverem secos, é hora de regar, devagar, até a água sair pelo fundo do vaso. Em vaso no verão, isso pode significar rega diária.
  2. Cubra o solo. Uma camada de palha ou folhas secas reduz a evaporação e a variação de umidade entre uma rega e outra.
  3. Use vaso maior. Mais volume de substrato segura mais água. Para tomate de porte normal, vasos abaixo de uns 20 litros secam rápido demais no calor.
  4. Automatize se a rotina não permite. Quem passa dias fora pode usar gotejamento com temporizador; este texto sobre irrigação por gotejo mostra como o sistema mantém a umidade regular.
  5. Modere o nitrogênio. Planta muito verde, com folhas grandes e poucos frutos, é sinal de adubação nitrogenada acima do necessário. Siga sempre o rótulo do adubo.
  6. Corrija o solo antes de plantar, se a análise indicar. A calagem, quando necessária, é feita com antecedência e na quantidade indicada pela análise e por um agrônomo, não por estimativa.

Se a mancha continuar aparecendo depois que a rega ficou regular, a suspeita passa para o solo, e aí a análise deixa de ser opcional.