Casca de ovo, borra de café e casca de banana têm nutrientes, mas nenhuma delas funciona como adubo pronto quando colocada direto no vaso ou no canteiro. Elas precisam se decompor para liberar o que contêm, e isso leva de semanas a meses, conforme o material e o tamanho dos pedaços. O caminho que funciona para os três é a compostagem, ou no mínimo triturar bem e misturar ao solo com antecedência. Abaixo, as crenças mais comuns sobre cada um e o que de fato acontece.

Mito: "Casca de ovo no vaso resolve a falta de cálcio da planta"

A casca de ovo é formada quase toda por carbonato de cálcio, o mesmo composto do calcário. O problema é a velocidade. Inteira ou em pedaços grandes, ela leva muito tempo para se desfazer no solo, e o cálcio que libera nesse período é pouco para corrigir uma deficiência que já está aparecendo nas folhas ou nos frutos.

Há ainda um segundo ponto: boa parte dos sintomas atribuídos à falta de cálcio, como o fundo preto no tomate, vem da rega irregular, que impede a planta de absorver o cálcio que já existe no solo. Nesse caso, mais casca de ovo não muda nada.

O que funciona: lavar, secar e moer a casca até virar pó, e incorporar ao composto ou ao solo bem antes do plantio. Assim ela age como um corretivo lento, que pode elevar um pouco o pH ao longo do tempo. Se a dúvida é se o solo precisa mesmo de cálcio, a resposta está na análise; este texto mostra como usar a análise de solo na horta.

Mito: "Casca de ovo triturada em volta da planta afasta lesmas e caracóis"

A ideia é que as bordas cortantes machucariam o corpo mole das lesmas. Na prática, elas atravessam a barreira sem muita dificuldade, especialmente depois da primeira chuva ou rega, quando a casca fica úmida e coberta de terra. A barreira pode reduzir um pouco o trânsito em noite seca, mas não protege uma muda de alface numa semana chuvosa.

O que funciona: recolher as lesmas à noite ou logo cedo, quando estão ativas, retirar esconderijos úmidos perto dos canteiros, como tábuas e pilhas de vasos, e regar de manhã em vez de à noite, para o solo não ficar encharcado justamente no horário em que elas saem.

Mito: "Borra de café deixa o solo ácido e é boa para qualquer planta"

O café em pó novo é ácido, mas boa parte dessa acidez sai na água durante o preparo. A borra usada costuma ficar próxima da neutralidade, e o efeito dela sobre o pH do solo é pequeno e imprevisível. Quem espalha borra esperando acidificar o vaso de uma planta que gosta de solo ácido raramente consegue o resultado.

O efeito mais visível da borra aplicada em camada grossa é físico: as partículas finas se assentam, formam uma crosta que dificulta a entrada da água e, mantidas úmidas, podem mofar na superfície do vaso.

O que funciona: colocar a borra na composteira, onde ela entra como material rico em nitrogênio, ou espalhar uma camada bem fina misturada à terra superficial, nunca uma camada grossa por cima. Para quem tem cão ou gato, um alerta: a borra tem cafeína, que é tóxica para eles. Não deixe borra exposta em vasos ou canteiros onde os animais circulam ou cavam.

Mito: "Borra de café espalhada no canteiro afasta formigas e pragas"

Essa é uma das receitas mais repetidas e uma das menos confiáveis. As formigas podem mudar a trilha por alguns dias por causa do cheiro forte, mas a colônia não é afetada e o problema volta. O mesmo vale para pulgões, cochonilhas e lagartas: a borra no solo não alcança insetos que estão nas folhas.

O que funciona: identificar a praga antes de agir e observar se o dano justifica controle. Quando o ataque passa do ponto de tolerância, o controle deve seguir orientação de um agrônomo ou da Emater e o rótulo do produto indicado. Este texto sobre mitos sobre pragas e doenças na horta organiza essa sequência.

Mito: "Casca de banana enterrada no vaso é adubo de potássio pronto"

A casca de banana tem potássio, e esse nutriente é liberado com relativa facilidade quando o tecido se decompõe. Só que, enterrada inteira num vaso, a casca leva semanas para se desfazer. Até lá, ela pode atrair mosquinhas, criar mofo e, em canteiro aberto, chamar roedores e outros animais que cavam atrás do cheiro.

Enquanto se decompõe, o material fresco ainda pode competir com a planta por nitrogênio, porque os microrganismos que fazem a decomposição usam esse nutriente do solo ao redor.

O que funciona: picar a casca e levá-la para a composteira, ou picar bem miúdo e enterrar no canteiro, longe das raízes, algumas semanas antes do plantio. Em vaso pequeno de apartamento, a composteira é o caminho mais seguro.

Mito: "Água de casca de banana substitui o adubo"

Deixar cascas de molho em água por alguns dias e regar com esse líquido é uma prática popular. A água extrai parte do potássio solúvel, mas a quantidade de nutrientes que chega à planta é pequena e varia de uma vez para outra, sem nenhum controle. Além disso, o líquido parado fermenta rápido, cheira mal e atrai insetos.

Não chega a fazer mal à planta se usado de vez em quando, mas não fornece o nitrogênio e o fósforo de que as hortaliças também precisam. Uma planta adubada só com isso vai mostrar deficiência cedo ou tarde.

O que funciona: tratar a casca como ingrediente do composto e adubar a planta com composto, húmus ou o adubo que a análise indicar.

Mito: "Qualquer resto de comida enterrado no vaso vira adubo"

Esse é o mito que reúne os anteriores. Resto de comida enterrado em pouco volume de terra, sem a mistura com material seco e sem aeração, tende a apodrecer em vez de compostar: fica malcheiroso, atrai moscas e pode prejudicar as raízes próximas. Restos cozidos, com óleo, sal, carne ou laticínios são os piores nesse sentido.

A diferença entre apodrecer e compostar está no equilíbrio entre materiais úmidos e ricos em nitrogênio, como cascas e borra, e materiais secos e ricos em carbono, como folhas secas e serragem, além de oxigênio. É esse equilíbrio que a composteira oferece e o vaso não.

Suponha uma casa que gera, por semana, as cascas de uma dúzia de ovos, a borra do café diário e as cascas de algumas bananas. Enterrado em três vasos da varanda, esse volume mal cabe, apodrece por semanas e atrai mosquinhas. Num balde de compostagem com folhas secas ou serragem por cima de cada camada de resto, o mesmo material vira, em alguns meses, um composto escuro e sem cheiro, que pode ser misturado ao substrato de todos os vasos de uma vez. A diferença não está no resíduo, mas no processo pelo qual ele passa antes de chegar à raiz.

O que funciona: separar os restos crus de frutas, verduras, cascas de ovo e borra, e montar uma composteira, mesmo pequena. Para apartamento, a vermicompostagem cabe em pouco espaço; este guia de compostagem e vermicompostagem mostra como montar. O composto pronto entrega, de forma equilibrada, aquilo que cada resíduo prometia isoladamente.