Inimigos naturais são os organismos que se alimentam das pragas da horta ou se desenvolvem dentro delas, mantendo as populações sob controle sem custo. Os mais comuns em hortas caseiras são joaninhas, crisopídeos, moscas-das-flores, vespinhas parasitoides e aranhas. Para atraí-los e mantê-los, a horta precisa oferecer três coisas: flores com néctar e pólen acessíveis para os adultos, abrigo, como palha e plantas perenes, e ausência de inseticidas de amplo espectro, que matam aliados e pragas ao mesmo tempo. Um ponto que pouca gente sabe: em muitas dessas espécies, quem come mais pragas é a larva, que não se parece em nada com o adulto e costuma ser eliminada por engano.

Como funciona o controle por inimigos naturais

Há dois grupos principais. Os predadores caçam e comem várias presas ao longo da vida: joaninhas, larvas de crisopídeos e de moscas-das-flores, aranhas, louva-a-deus e alguns percevejos. Os parasitoides, em geral vespinhas de poucos milímetros, colocam ovos dentro ou sobre a praga, e a larva se desenvolve ali, matando o hospedeiro.

O controle não é imediato nem total. Os inimigos naturais aparecem depois das pragas, porque dependem delas para se alimentar e se reproduzir. Por isso, ver alguns pulgões na couve não é sinal de fracasso: é a base que mantém os aliados por perto. O objetivo é equilíbrio, com pragas em número baixo, e não uma horta sem nenhum inseto.

Joaninhas

As joaninhas adultas são conhecidas: pequenas, arredondadas, vermelhas, laranja ou amarelas, com ou sem pintas. Tanto os adultos quanto as larvas comem pulgões, cochonilhas e ácaros, dependendo da espécie.

A larva é a fase que mais confunde. Ela é alongada, escura, com manchas laranja ou amarelas e o corpo segmentado e espinhoso, parecida com um pequeno jacaré. Quem não conhece costuma achar que é praga. Os ovos são amarelos, em forma de charuto, colocados em grupos na face de baixo das folhas, perto das colônias de pulgões.

Crisopídeos

Os adultos são insetos delicados, verde-claros, com asas transparentes e cheias de nervuras, e olhos dourados. Muitos se alimentam de néctar e pólen. Quem caça é a larva, conhecida como bicho-lixeiro em algumas regiões, porque carrega nas costas restos de presas e detritos como camuflagem. Ela come pulgões, ovos de lagartas, ácaros e pequenas lagartas.

Os ovos são inconfundíveis: ficam na ponta de um fio fino e branco, preso à folha, como um pequeno alfinete.

Moscas-das-flores

Os adultos parecem pequenas vespas ou abelhas, com listras amarelas e pretas, mas são moscas: pairam parados no ar diante das flores e não picam. Alimentam-se de néctar e pólen e também ajudam na polinização. As larvas, verde-claras ou esbranquiçadas, sem pernas, parecidas com pequenas lesmas, vivem no meio das colônias de pulgões e se alimentam deles.

Vespinhas parasitoides

São vespas minúsculas, que quase ninguém nota, e não oferecem risco a pessoas. A presença delas aparece nas próprias pragas: pulgões inchados, endurecidos e de cor bronze ou palha, chamados de pulgões mumificados, às vezes com um furinho redondo por onde a vespa adulta saiu. Ao ver esses pulgões, deixe-os na planta: deles sairão novas vespinhas.

Aranhas, louva-a-deus e outros aliados

Aranhas caçam grande variedade de insetos e estão entre os predadores mais numerosos da horta. Louva-a-deus, percevejos predadores, tesourinhas, sapos, lagartixas e pássaros também participam. Nenhum deles é seletivo: comem pragas e insetos úteis. Mesmo assim, uma horta com essa diversidade costuma ter menos explosões de pragas.

Como saber se os aliados já estão na sua horta

Uma vistoria de poucos minutos, uma ou duas vezes por semana, já mostra o que está acontecendo. Vire algumas folhas de couve, de pimenta e de outras plantas que costumam ter pulgões e procure: ovos amarelos em grupo, ovos presos em fios finos, larvas escuras e espinhosas no meio das colônias, pulgões cor de palha e inchados. Observe também as flores nas horas mais quentes do dia, quando moscas-das-flores e vespinhas estão ativas. Anotar o que encontrou ajuda a perceber, ao longo das semanas, se as colônias de pragas estão crescendo ou diminuindo.

Como atrair e manter os inimigos naturais

  • Flores pequenas e abertas: muitos adultos de inimigos naturais têm aparelho bucal curto e precisam de flores com néctar fácil de alcançar. Deixe florescer parte do coentro, do endro e da erva-doce, cujas flores em guarda-chuva atraem vespinhas e moscas-das-flores. Calêndula, cosmos, girassol e manjericão em flor também ajudam.
  • Floração escalonada: plante espécies que florescem em épocas diferentes para não faltar alimento ao longo do ano.
  • Abrigo: cobertura de palha no solo, uma faixa de plantas perenes ou de ervas que não são cortadas e alguns cantos menos mexidos servem de refúgio, inclusive para os adultos passarem períodos frios ou secos.
  • Água rasa: um prato com pedras e pouca água permite que insetos bebam sem se afogar. Troque a água com frequência para não virar criadouro de mosquito.
  • Diversidade no canteiro: misturar hortaliças, temperos e flores, como nas plantas companheiras na horta, oferece alimento e abrigo e dificulta a vida das pragas especializadas.

Inimigos naturais e inseticidas

Inseticidas de amplo espectro, inclusive muitos produtos caseiros apresentados como naturais, matam os aliados junto com as pragas. Como as populações de pragas costumam se recuperar mais rápido que as de seus inimigos, o resultado depois de algumas aplicações é uma horta com mais pragas que antes.

Antes de aplicar qualquer produto, observe. Se há joaninhas, larvas de crisopídeo ou pulgões mumificados, o controle já está acontecendo. Retire à mão as folhas mais atacadas ou use um jato de água para derrubar parte dos pulgões. Se o ataque for grave e persistente, procure um agrônomo ou a Emater para identificar a praga e indicar a medida adequada, seguindo sempre o rótulo e o receituário agronômico.

Controle biológico comprado

Além de atrair os inimigos naturais que já existem na região, é possível comprar alguns deles, criados em laboratório, para liberação em lavouras e estufas. Essa prática, chamada de controle biológico aplicado, é mais comum em produções comerciais e depende de identificar corretamente a praga e de soltar o organismo certo na hora certa. Para hortas domésticas, atrair e conservar os aliados locais costuma ser suficiente e mais simples.

Erros comuns

Matar larvas desconhecidas. Antes de eliminar um inseto estranho, observe o que ele está fazendo. Larvas de joaninha e de crisopídeo ficam no meio dos pulgões porque estão comendo.

Capinar tudo e deixar o solo nu. Sem abrigo e sem flores, os aliados não se estabelecem. Prefira cobertura do solo e algumas plantas floridas.

Esperar resultado imediato. Leva algumas estações para uma horta formar uma comunidade estável de inimigos naturais. A rotação de culturas por família de plantas e a organização do quintal por zonas da permacultura ajudam a manter faixas floridas e cantos de abrigo sem atrapalhar os canteiros.